Era, mais precisamente, 17 horas.Hora de arrumar as malas, encaixotar a comida, e pé na estrada.Hora de voltar pra rotina, cair na monotonia, deixar amigos, família, cidade, tudo o que me faz bem. Estava na hora de eu colocar a responsabilidade na bolsa, fechar com um cadeado e carregá-la comigo. Estava na hora de segurar a lágrima, de pensar no futuro. Estava na hora de abraçar quem me acompanhava ,dizer:até breve. Até breve pois aquele sentimento para retornar a cidade era maior que qualquer outro já sentido.
Mas,enfim, peguei a bagagem e tomei meu destino.
Entrei no ônibus, escolhi um bom lugar.Acomodei-me, e comecei a viajar nos pensamentos. Chovia torrencialmente. Aquelas gotas de água corriam pelo vidro em ritmo constante. Aproveitei o ritmo para embalar minhas imaginações. Peguei uma folha meia amarelada e comecei a rabiscar.Não sabia o que escrever. Aquele sentimento estranho consumia-me e martirizava-me.Afinal, odeio despedidas.Foi quando, de repente, uma pessoa desperta-me dos pensamentos e pergunta-me se aquele lugar ao meu lado estava vago.Com um simples balançar de cabeça, afirmei que sim. Continuei a rabiscar aquela folha, a qual nem sei certo a precedência. Aos poucos foi surgindo uma interação entre nós, um diálogo duradouro. Parecia que conhecia aquele passageiro desde muito tempo. Guardei a folha e continuei a conversar, já que é com poucas pessoas que consigo interagir com liberdade e sentir-me a vontade.O assunto nunca acabava.Parecia ser uma amizade de muitos anos.Mas, pelo contrário, mal conhecia aquele ser, e ainda, julgava-o extremamente antipático.
Como podemos julgar as pessoas pela aparência?Lamentavelmente, é o que ocorre nos dias de hoje. Nunca conversamos com tal pessoa mas já a achamos chata. Ou ainda, subestimamos sua competência, sua inteligência, sua simpatia. Que mundo mais bizarro.
Voltei a lembrança para aquele ônibus. Não simpatizo muito com esse meio de locomoção, mas, para um simples estudante é o que resta.Olhei para atrás havia alguém comendo “traquinas”, ao lado alguém saboreando um “fandangos”, e a frente alguém, praticamente, mergulhando em uma latinha de “coca”.Quantas coisas estranhas acontecem em um ônibus, nunca tinha reparado. Aliás, a correria diária, as vezes, faz-nos aprofundarmos em um mundo essencialmente individualista.Um mundo onde não olhamos, nem mesmo, para quem está ao nosso lado.Embora, acredito que o egocentrismo aumenta a auto-estima própria, a vontade de viver, a confiança individual.Acredito, acima de tudo, que as vezes é necessário deixá-lo de lado e integrarmo-nos nessa endoidecida sociedade contemporânea.
Aquela conversa não era das mais produtivas, mas fazia os ponteiros do relógio ganharem um ritmo mais acelerado.Cativei mais uma pessoa para o meu círculo de amizades.
Aliás, amizade é um sentimento que está em extinção no mundo atual. Refiro-me a amizades verdadeiras. Aquela amizade que serve como alicerce para superar nossos obstáculos, para compartilhar alegrias, tristezas, superações.
Há muitas pessoas que mascaram esse sentimento.Há tanta falsidade no mundo,há tantas ideologias, tanto interesse.Há tanta competição, concorrência, umas pessoas querem ser melhores que as outras.Está escasso o sentimento verdadeiro, de afeto, carinho e confiança.Há tantas amizades descartáveis,flexíveis e pouco resistentes.Há tantas trapaças, desgostos, desconsolos.Há tanta falta de diálogo, de preocupação.Há outra acepção para o termo amizade que vai ,praticamente, contra os preceitos da camaradagem,do apreço,do coleguismo.Claro, não é cabível generalizar a escassez de legitimas amizades, porque sempre há aquelas exceções. Ressalto aqui os meus amigos verdadeiros, que levarei para sempre aprisionados em minha memória e em meu coração.Não há tempo, nem distância que consiga denegrir um sentimento real.
Por instantes acreditei que o motorista havia esquecido de regular a temperatura do ar. Fazia um frio tremendo. Cruzei meus braços, e consumi-me pela timidez. O assunto agora era a temperatura ambiente.Não quis falar, mas comecei a imaginar quantos graus poderiam estar naquele local, Não importa.Importa que estava muito frio.Por instantes escutei alguns “coff, coff”. Realmente estava frio.
Estávamos quase chegando no destino, quando dei-me conta de perguntar o nome daquele passageiro. Mas, pensando bem, pouco importa o nome de uma pessoa, de onde veio, a sua idade. O que importa é a simpatia,a persuasão, o respeito.
O ônibus parou,despedi-me daquele novo amigo.
Peguei a bolsa, minha bagagem.Fiz sinal para o táxi.
Respirei fundo e um ar de tranqüilidade invadiu-me.Estava tão bem comigo mesma.
E o amigo?Ficou na lembrança,com nome, idade,e origem desconhecidos.Mas, idealizado como um ser humano raro pela minha imaginação.
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