Era dia 13 de setembro, o ano não me recordo bem.
Aquela bela jovem descia as longas escadarias do salão.Ela usufruía de uma sensibilidade e carisma exarcebado.Encantava a todos com um vestido preto com alguns bordados que brilhavam, assim como um vaga-lume em noite escura; nos pés um delicado sapato que modelava e disfarçava algumas assimetrias genéticas.
As luzes apagaram-se, a música clássica levemente começou a soar nos ouvidos de quem ali estava. Em meio ao salão,encontrava-se um moço muito jovem, moreno, estatura mediana, nada muito chamativo.Mas, possuía um olhar de sagacidade e admiração.
Os holofotes voltaram-se para a moça, e a homenagem iniciou.
Alguém falou em homenagem?sim. mas ainda não sabia o motivo.
Em uma parte do salão estava a mesa farta, alguns enfeites e os garçons servindo bebidas e guloseimas. Lá fora, encontravam –se algumas crianças endoidecidas brincando de “pega-pega”.Totalmente felizes.Aliás, a felicidade invadia aquele meio.
Como é bonito ver as pessoas felizes, cada qual sabendo respeitar as diferenças, normas e preceitos dos outros.Quem me dera viver em um mundo onde pairasse a liberdade de expressão, onde todos se amassem, onde os interesses fossem esquecidos e uma nebulosa onda de prosperidade, lealdade e respeito encobrisse o globo terrestre.
O pai da moça, um cara um pouco sério, já marcado com os sinais da idade irradiava sorrisos A mãe da jovem, que não a largava por nenhum momento, parecia preocupada;mas jamais deixou de espalhar beleza e alegria por onde passava.
Iniciaram-se os discursos.Parecia época de eleição,mas não era.Talvez uma despedida?
De todos os lados surgiam elogios para aquela família, principalmente para a jovem.Em meio a esses discursos, fiquei sabendo que ela era formada em medicina, seu pai era jurídico e sua mãe escrivã. A menina ainda possuía mais 2 irmãos: um engenheiro e o outro veterinário. Ambos casados, um com uma psicóloga e o outro com uma farmacêutica. Tudo parecia normal naquela família.
Acabaram-se os discursos e pronunciamentos. Era a hora da festa.
Apagam-se as poucas luzes que restam, o som muda de ritmo.Começa uma festa mais agitada, bebidas a vontade, luzes brilhando para todos os lados.Parecia que as luzes brilhavam no ritmo da balada.Era um momento mágico, quanta alegria naquele meio.
O moço moreno, de nome desconhecido, retira-se da balburdia, senta em um balanço branco no jardim e começa a viajar nos seus pensamentos:
-Como as pessoas reagem diante de uma noticia terrível?Uns choram e caem no desgosto, outros festejam, embebedam-se, e caem na farra.Que engraçada essa vida.Aliás, como pode uma donzela tão jovem e bonita cair nas garras da enfermidade e ter o seu futuro comprometido?Será esse o destino de todas as pessoas?Será que nunca poderemos ser felizes?
As indagações torturavam e atormentavam aquele pobre rapaz.Até que a moça surge,quase que do além, senta-se na grama e fica o escutando. Quando ele percebe que a bela moça estava atrás, fica perplexo e simplesmente cala-se.
-Continua meu jovem.Adoro ouvir as confusões e pensamentos das pessoas, estou aqui pra lhe ajudar a decifrar as grades dessa vida.Grades que,muitas vezes, acabam com nossos sonhos e afastam-nos de quem mais amamos.
O rapaz calou-se de vez.
A jovem continuo a falar com sua voz suave que se completava com a relva e a brisa que invadia aquele meio.
-Como você já sabe, faz pouco tempo que descobri a minha doença.De inicio meu pai ficou surpreso, minha mãe desconsolada. Não sabiam como me contar. O tempo foi passando e os sintomas começaram a surgir, eles obrigaram-se a falar o que estava acontecendo. Em 5 dias precisei de doação de sangue, ocorreram campanhas de arrecadações e muitas pessoas generosas, a quem serei grata até a eternidade, colaboraram. Estava em situação precária, parecia que o meu destino tinha chegado.Porém, ainda tinha pensamento positivo de que eu poderia sair dessa.Quer dizer, eu precisava sair dessa.Eu ainda tinha que agradecer a todas as pessoas que de alguma forma me ajudaram e confortaram meus pais no momento em que eu não estava ali para ampará-los.Graças ao conhecimento e esforço dos bons médicos, consegui melhorar e estar aqui hoje, para essa homenagem. Todas as pessoas que estão aqui, de alguma forma, colaboraram para esse momento acontecer.
O rapaz trêmulo e encabulado suava frio,cabisbaixo disse: -Que vergonha, eu não fiz nada disso; não doei sangue, não consolei seus pais.Eu não mereço estar aqui, você poderia ter convidado qualquer outra pessoa, mas não eu. Não sou digno do seu reconhecimento.
A menina com uma suavidade tremenda, eleva a sua mão e faz um gesto para ele calar-se e continua: -Meu caro jovem, você fez muito mais que doar sangue ou confortar meu pais, você confortou o meu coração.Você foi um dos motivos para eu não me entregar para a escuridão pois eu ainda precisava tocar te, falar com você. Não seria justo que eu partisse sem nem aumenos dizer que te admirava . Mas, agora que você já sabe de tudo isso, preciso ir, resta-me pouco tempo de vida.O menino pasmo, surpreso gritou:-Espera, vou com você.
A menina perdeu-se entre a cerração que já encobria o terreno e a porta do salão.
Ao entrar encontrou a sua mãe em desespero.Abraçou-a e pediu para que não chorasse.
-Mamãe, a vida é assim para todos, alguns recebem a peça antes, outros são avisados e outros, nem possuem tempo para decorar as suas falas que já precisam embarcar na trama. A minha missão está quase cumprida. O tempo que eu estive aqui tentei ser a melhor pessoa possível, amei vocês como jamais conseguiria amar outras pessoas. Conheci pessoas fantásticas.Percebi o quanto um simples gesto pode representar a vida para alguém, talvez até fazê-la ressurgir das cinzas. Muitas pessoas não sabem aproveitar esse presente tão precioso- esquecem de viver, esquecem de amar, esquecem que vivem em uma sociedade onde todos precisam de respeito e carinho. O individualismo toma conta de muitos cidadãos. Quem me dera abrir o coração de cada pessoa e colocar uma pitadinha de amor dentro dele.Mas mãe, onde eu estiver, vou estar pensando em vocês.Um dia, quem sabe na eternidade, iremos nos encontrar e você irá rir de tudo isso que passou.
Nesse instante chega o seu pai e pede pra ela calar-se.Afinal,nada iria acontecer.Ela já estava melhor e iria viver por muito tempo ainda.
Não pai, a gente nunca sabe a nossa hora, só quero deixar bem claro para as pessoas que mais amo o quanto são importantes pra mim. A você meu velho, serei eternamente grata.Eu sei que você passou necessidades para pagar meus estudos, para me dar uma vida com luxos, e sempre quis o melhor para mim. Por mais que você tenha esse jeito sério, eu sei que você é invadido por sentimentos e embalado pela sensibilidade.Você foi meu exemplo de honestidade, sabedoria e trabalho.Você é o meu herói.
Aos poucos, lentamente, as cortinas foram fechando-se e a menina embarcando no barco da eternidade.O rapaz invade a sala em prantos e grita para que ela não se vá.Não adianta, já era tarde.
O menino soluçava e gritava: Por quê? Você nem esperou para mim dizer um até breve.Você se foi sem nem eu revelar que sempre senti atração por você, mas a minha timidez nunca permitiu que eu me aproximasse.
As luzes param de piscar, o som não é mais escutado.
Apenas as velas iluminam aquele salão e o silêncio embala o ritmo da noite.
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